ainda bem que ela foi

ela foi. um dia, foi. e os dias passam tão rápido que quando damos por eles já se transformaram em anos. e há tanta coisa que acontece em anos. tanta. e a Sofia foi. simplesmente foi. foi e transformou os seus dias em anos da melhor maneira que conseguiu.
a Ana ficou. e com ela ficou uma enorme saudade que traz sorrisos e lágrimas que viajam no tempo. porque os seus dias também se transformaram em anos. e os anos mudam tanta coisa. tanta. mas não trazem a Sofia de volta. fizeram-na sorrir com os olhos que antes choravam. e a Ana sorri de volta. ainda bem que ela foi!

ela não sabia disso

ela abriu a porta com os olhos cheios de alegria. a noite anterior tinha corrido como um conto de fadas. daqueles contos de fadas que na verdade não existem, mas ela gosta de criá-los com pormenores bonitos à sua maneira. 
no dia a seguir, a Filipa arranjou o cabelo e saiu à rua com os mesmos olhos. aparentemente, tinha tudo para correr bem. sentou-se à espera. esperou demais. esperou demais por qualquer coisa que nem ela sabe o que é. nesse dia fechou a porta com outros olhos. bonitos, mas tristes. todos os contos de fados têm altos e baixos. mas ela não sabia disso, não o tinha escrito assim. 

puzzle

sonhos. há sonhos que nos escapam por entre os dedos. outros deixamos cair e partem-se em tantos bocadinhos que já não sabemos nem de metade. a Mariana nunca o deixa fugir. e mesmo quando ele começa a ameaçar partir-se, ela agarra todos os bocadinhos que saltam e guarda-os num sítio onde ninguém consiga chegar. hoje acordou, vestiu as cores que gosta e pintou os lábios. está na altura de começar a fazer o puzzle. afinal de contas, já não falta assim tanto tempo.

um, dois, três.

a Marta conta até três. conta até três, bem devagarinho, quando as saudades apertam muito. um, dois, três. respira fundo. a falta que ele faz dói-lhe muito. mesmo quando é só um segundo. mesmo que seja um piscar de olhos, um espirro. que sentimento é este? um sentimento que manda nela. tão estranho e tão bom. será isto o amor? "volta, volta". um, dois, três. um sorriso, um beijo e um abraço. "não vás!". é isto o amor! a ausência dói. todos os segundos ao lado dele. a Marta quer todos os segundos ao lado dele! um, dois, três. "fica comigo para sempre!".

para além das paisagens

os olhos dele são como que uma paisagem escondida que só os aventureiros conhecem. e essa paisagem acaba por ser a mais bela, às vezes pelo simples facto de terem tido coragem para a procurar. talvez seja isso que os torna tão bonitos. tão pequeninos. mas tão bonitos. com a Sara foi assim. aventurou-se nos olhos dele sem saber o que podia encontrar. as surpresas podem ser tão boas. o Vasco acabou por não ser só uns olhos bonitos. e aos poucos a Sara foi desenhando mais pormenores naquela que seria a paisagem ideal. os lábios macios e doces. a pele clara. as mãos grandes e os dedos tortos que encaixam perfeitamente nos dela. e os braços que a protegem e seguram quando tem medo de cair. o fascínio pelas pequenas coisas que os dois têm faz com que se entendam tão bem. e quando tudo é bonito e fica bem na fotografia dá vontade de ver mais. de conhecer mais. aqui e ali o Vasco vai-lhe mostrando um mundo novo. ele também gosta de aventuras. e as paisagens são bonitas. tão bonitas. mas existe muito mais para além delas. 

crianças em fuga

eles encontravam-se quando a manhã falhava nos campos do desejo. encontravam-se quando ele perdia a sua parte no coro do escuro. onde havia a promessa de conduzir o que era certo. enquanto os dois sabiam que os campos iriam ficar brancos. e ela sabia que ele nunca falaria de dias porque sabia que ela não os ia contar. eles nunca cresceram um único dia desde que partilharam o veneno. e quando caminhavam de volta a casa, nunca confessavam o que tinham feito. eram apenas crianças em fuga.
eles nunca fizeram parte das fotografias tiradas, enquanto alimentavam o fogo com chamas até não restarem lembranças. e o céu frio escreveu-lhes uma canção, mas eles nunca confessaram o que fizeram. o reflexo nos olhos deles podiam pintá-los como assassinos. e até que o terror do seu tempo os pudesse perdoar como amantes, eles iam partindo corações. e não, ele nunca falaria de maneiras porque sabia que ela não as ia tentar. e todas as armas que caíam do céu eram para eles abraçarem.
o céu frio escreveu-lhes uma canção, mas eles nunca confessaram o que fizeram. são apenas crianças em fuga.

elas têm tanto medo

o sentimento é quase como um bichinho chato que anda em nós, de um lado para o outro. dificilmente nos faz sentir perfeitamente bem ou tremendamente mal. talvez seja essa a magia do ser humano, conseguir misturar uma data de coisas boas e más e transformá-las num sentimento. e por isso mesmo, os sentimentos não se explicam. 
foi assim que aconteceu com a Samanta. tudo começou por ser uma enorme confusão, em que tudo o que era bom estava mal e tudo o que era mau estava bem. e demorou tanto tempo até ela conseguir perceber. depois de distribuir todos os seus pensamentos por pequenas gavetas, organizadas por cores e letras ela chegou a uma conclusão: ela amava aquele homem. e o amor é o sentimento mais bonito e mais chato de todos, o pior bicho que pode andar em nós. o da Samanta era enorme. tão grande que a fez pensar que já tinha sentido tudo o que alguma vez podia sentir. e que, dali para a frente, não iria sentir nada de novo, nada tão forte. apenas pequenas versões do que já tinha sentido. 
afinal de contas, existe algum bicho que volte à vida? quando morre, apenas deixa as suas crias, pequenas imitações dele próprio. e elas têm tanto medo...

pequenos monstros apenas para ela

a Joana chora. e chora sempre que não quer. chora sempre que não pode. quando sente os lábios salgados e se apercebe que, apesar de lentamente, os outros à sua volta já repararam nas lágrimas que lhe caem pelo rosto corado, ela fica atrapalhada. chora ainda mais por tentar arranjar mil e uma justificações, numa tentativa fracassada de impedir todas as perguntas que se seguem. mas nunca consegue. seriam precisas várias revistas cor-de-rosa para explicar o que se passa àqueles que se preocupam e não percebem e àqueles que apenas se fingem interessados porque fica bem, talvez, na capa da próxima revista. acaba sempre por lhe sair um "nada" um tanto ao quanto tremido e pouco confiante. o rótulo de "coitada" é quase certo, em alguns momentos acompanhado por uma ideia de fraqueza ou apenas chamada de atenção. 
a Joana chorava. e chorava quando podia. o Miguel adivinhava-lhe as lágrimas mesmo antes dos seus olhos ameaçarem. e ela não se atrapalhava. aceitava o ombro dele como porto de abrigo. só a ideia de o ter ao seu lado fazia-a voltar a sentir os pulmões e respirar fundo até que a sua voz finalmente voltasse. falava durante horas, de uma maneira desorganizada e trapalhona, de tudo aquilo que lhe molhava os olhos. o Miguel ouvia, até as coisas que não tinham pés nem cabeça e eram pequenos monstros apenas para ela. quando a Joana acabava, ele abraçava-a com força e dava-lhe um beijo porque sabia que os seus beijos curavam tudo. 
a Joana chora. e chora sempre que não quer. chora sempre que não pode. o Miguel foi-se embora e não há ninguém que lhe adivinhe as lágrimas, mesmo depois dos seus olhos ameaçarem. 

vou acreditar em ti.

os lábios dele são doces e ela é tao gulosa. deu-lhe um beijo do tamanho da perfeição dos dele. envolveram-se numa enorme mistura química, daquelas que criam algo incrivelmente único sem ninguém perceber muito bem como. tudo à volta deles deixou de existir, transformando-se quase que em nuvens, como se de um sonho se tratasse. a Camila sorriu e o João sorriu de volta, um pouco nervoso. "vou acreditar em ti", disse-lhe. 

o "amor"

o que é isso do amor que toda a gente tanto fala associado a uma catrefada de coisas que nada têm a ver umas com as outras? tanto desejo e tanta repugnância. as amigas da Filipa pareciam ser peritas nisso, já com mestrado e doutoramento na área. umas riam, outras choravam. umas loucas, outras apenas caladas. mas parecia que era um mal comum neste mundo. uns diziam sim, outros diziam não. e depois havia aqueles que se ficavam pelo talvez, sempre acompanhado por uma daquelas teorias que dava vontade de vomitar de tão pouco sentido que faziam. a Filipa continuava perdida. procurando esse tal "amor" em todo o lado, em todas as pessoas, em todas as coisas. à espera que ele aparecesse ao virar da esquina, debaixo da cama ou dentro de uma gaveta. enchia-se de esperança, contava até três e quando dava por ela, ele já tinha fugido. um dia encontrou-o. embrulhado num manto de complicações sem pés nem cabeça. e quando o desembrulhou, lá estava ele, o "amor". mas não estava sozinho. vinha acompanhado de um outro a quem todos chamam "problema". e este, era um grande problema.